rabisco

Blog EntryBrasasMay 8, '08 12:55 PM
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Virá como um gato à tardinha. Macio e ligeiro virá,
sonolento e cruel, leve e certeiro, virá encurvado, em silêncio,
sobre patas que pairam, o dorso arqueado, peludo, sedoso e cruel
armado para o salto, virá como a faca aguçada. As pupilas
amarelo-tigre, sorrateiro, bajulador, virá como um gato
pelo muro, armando a emboscada, paciente, elástico: viu o inseto,
não desistirá.

Virá, não vai desistir. Volte pra mim até que venha, não
desapareça, pelo
menos às noites
volte pra mim, desejo: quando ainda era jovem, magro e com
espinhas no rosto, dia e noite fantasiava poemas, fantasiava mulheres dia e
noite você não me abandonava: comigo na
cama, comigo ao levantar,
brasas da minha noite, vergonha diária no leito, na escola, nos
jogos, no
pomar, ardendo em desejos pela mulher
sem mulher: rinoceronte pela manhã, rinoceronte de dia,
rinoceronte à noite,
rinoceronte no sonho, o sutiã pendurado
na corda,  par de sandálias de mulher no corredor de entrada, o
rodar do lápis
no apontador,
a moça em uniforme do exército, gorda e de grossas tranças
aproxima da boca a
colher da densa geléia de ameixa,
meu sangue engrossava em mel quente. Ou à noite, por trás da
cortina
fechada, a silhueta da mulher
que penteia outra, todo movimento em curvas graciosas, mexendo,
misturando, afofando, todo som das vozes descendo
ao murmúrio, a moça costura um botão na roupa, o toque do
sabonete, da
pasta na palma da minha mão,
piada suja, palavrão, um traço de perfume misturado ao cheiro
secreto de suor de
mulher,
no mesmo instante sinto em mim a erupção de um gêiser fervente
envolto em
vapores de vergonha. Até mesmo palavra mulher impressa,
até mesmo seio escrito na caligrafia arredondada, ou o jeito do sofá
virado de
pernas pro ar faziam ferver
em mim o caldo do desejo, e o corpo se crispar como um punho.
Agora um
macho velho, rinoceronte das memórias
em sua cama ele te implora volte, que volte o desejo pela mulher,
que volte
para ele à noite, que volte
ao menos em sonhos aquele tremor, que volte o queimar das brasas
que
sussurramm, que tão te esqueça
que não esqueça até que venha o que vier, nas patas de seda
deslizantes, o
pelame macio
a pupila amarelada, virá como eco de um leve sussurro e nele os
caninos afiados
da pantera, da mulher esquiva.

de "O mesmo Mar"

de Amós Oz


A loucura e a identidade cultural

Por que o homem moderno tanto se reconhece nas palavras de um lunático?

Laura Restrepo

Não é por coincidência que Dom Quixote e Hamlet, os dois personagens literários que prefiguram o homem moderno - um da literatura espanhola e o outro da inglesa - são ambos loucos, ou fingem sê-lo. Tanto Cervantes como Shakespeare recorrem a esse peculiar recurso narrativo, tornar loucos seus respectivos personagens, com o resultado de que, nos séculos posteriores a suas obras, o conceito de louco se tornou gradualmente um marco de modernidade, de alteridade, de uma visão irônica, subjetiva do mundo. Em suma, ele envolve uma liberdade - errar, enganar a si e aos outros, duvidar, falhar; o que significa, uma liberdade para as idiossincrasias humanas seguirem o seu próprio caminho.

Qual a conexão simbólica entre loucura e modernidade? Por que o homem moderno haveria de terminar se reconhecendo nas palavras de um lunático? Seguramente porque, no momento em que o grande divisor é reconhecido pela primeira vez, a loucura é o único nome concebível para esse exercício de fazer em pedaços os velhos modelos, de transgredir os limites do conhecido e do que é aceito, de ir além do que quer que a racionalidade convencional tenha conseguido codificar.

Como o próprio Cervantes indicou muitas vezes, a principal causa da loucura de Dom Quixote é sua leitura de livros de cavalaria. Essa obsessão o leva a perder a identidade e a se conceber não mais como uma mera pessoa, mas como um personagem: de um lado, existe o Alonso Quijano de todo dia, e de outro, a visão que ele tem de si mesmo como um cavaleiro errante e famoso reparador das injustiças. Para se reinventar à semelhança do que leu, ele se dá o falso nome de Dom Quixote, inventa um codinome adequado para seu cavalo, conjura uma linda dama do ar, e constrói um amor monumental por ela.

Desde o seu surgimento, a natureza de Dom Quixote, como será a de um homem moderno, é marcada por cultura e meios de comunicação. Não foi por acaso que Dom Quixote nasceu na mesma época que o primeiro meio de comunicação de massa, conhecido como a imprensa escrita, que, por sua vez, promoveu aquele gênero literário amplamente disseminado, conhecido como romance cavalheiresco.

Dom Quixote arenga seguidas vezes, enquanto se reinventa para si mesmo, e os leitores o acham estranho, maluco, mas ao mesmo tempo se reconhecem nele, e é aí que se revela a grande transformação. Pois, entre Dom Quixote e o mundo que o rodeia, surgiu um poderoso mediador cultural: o da própria linguagem, com seu poder imenso de reformar a realidade, e não raro, suplantá-la. Dom Quixote, o primeiro homem moderno, passa de mero ser natural a uma entidade cultural.

Com Hamlet acontece algo parecido: sua loucura é basicamente teatral, na medida em que ele está agindo como se estivesse louco. Ele vê o mundo como um cenário. Em Hamlet, essa nova realidade cultural adquire um poder que finalmente se impõe sobre a outra realidade, a 'real', que lentamente se desenrola e é vista como sistematicamente suspeita. Tanto Dom Quixote como Hamlet nos confrontam com um novo tipo de ser humano que não é mais tão obcecado pela realidade quanto o é pela representação da realidade, por meio da cultura.

Hoje, continuamos trilhando o caminho traçado por esses dois personagens enquanto discutimos a influência do Quixote em vários âmbitos culturais. Deve-se notar que não estamos discutindo a influência de Quixote sobre pessoas enquanto tal, mas sobre a cultura que os seres humanos geraram. Mas não podemos ser acusados de loucura por isso: porque o que em Dom Quixote era loucura, é hoje um componente padrão do homem moderno que desconfia desse elemento tênue a que chamamos realidade e duvida até da própria existência. Nos sentimos mais confortáveis confiando no simbolismo do real e de suas representações. Não estamos mais interessados em lidar com a realidade como matéria-prima, pois sentimos um chão mais sólido quando nos digladiamos com nossas próprias criações - os sistemas de signos que constituem a cultura. No século 17, essa forma peculiar de epistemologia irrompeu de maneira tão inesperada que Cervantes teve de chamá-la loucura; hoje, ela alcançou uma rara estatura nos domínios da razão.

Dom Quixote se acredita um cavaleiro andante, mas não é; Cervantes se empenha em nos revelar sua verdadeira face por uma peça de dupla articulação, por uma visão refletida que se revela tipicamente moderna. Entre o homem e a visão que ele tem de si mesmo, há uma disparidade que produz vertigem, com possibilidades ilimitadas colocadas em jogo, e uma dose quase inimaginável de ambigüidade.

Enfim, há ironia. Esse novo tipo de ser humano suspeita que existe uma anulação, uma combinação imperfeita entre o self e o universo, entre o sujeito e o que o cerca, e é precisamente dessa incompreensão que emerge a ironia moderna, com sua desconfiança, ao modo de Hamlet, das possibilidades da ação.

Para conceber o homem novo, é preciso proceder por meio da dúvida - dúvida metódica, segundo o primeiro filósofo moderno, Descartes - mas também pela zombaria. Cervantes goza de seu personagem, faz dele uma criatura grotesca, uma aberração. Uma ferramenta semelhante de zombaria metódica posteriormente converte os Gregor Samsas da literatura contemporânea em insetos.

Assim, o homem supera sua própria ingenuidade quando vira para ela esse novo olhar irônico, dissociado, e ao superar essa ingenuidade ele deixa a infância para trás. Quem se deixar duvidar, e rir, deixa para trás a realidade rasa, decifrável, para penetrar numa zona mais problemática, povoada de figuras em chiaroscuro, de marchas e contramarchas, de duplos sentidos, de ambigüidades ressoantes.

Dúvida e humor implicam o fim do heroísmo, a antiga fé que tornava a ação possível, enquanto ironia e dúvida tendem a paralisar. Por isso, Hamlet é um tamanho fiasco como vingador, e Dom Quixote, tamanha caricatura de cavaleiro errante. Nesses dois personagens, o homem moderno se reconhece como tendo reformado o curso de seu próprio destino, e como quem dá dois passos atrás para cada passo adiante. Como alguém enredado na própria capa, ou urinando na própria sopa. Para colocar nas palavras de Cervantes, nos reconhecemos como tendo 'saído para o mundo pela porta errada'.

O jogo decisivo deixou de ser jogado no terreno da realidade e é antes mediado no terreno da cultura, e, por isso, chegamos a ver algumas atitudes excessivamente imbuídas de realidade como ingênuas, pré-modernas e antiquadas, ocupadas demais com avatares do real; achamos o heroísmo suspeito, para não mencionar qualquer excesso de paixão ou convicção, como dar sua vida por uma causa, ou morrer por amor: essas atitudes são consideradas além do espectro do razoável. Escritores sérios deram livre rédea a uma tendência de ver como anacronismo os dramas sociais, dramas regionais, dramas humanos comuns, de carne e sangue, isto é, do tipo que vemos na rua, do tipo que ofende nossas sensibilidades. Preferimos lidar com isso depois de filtrado, catalogado, e, de certo modo, domado pela abstração.

Com o fim da crença em qualquer forma de heroísmo, exilamos também a grandiloqüência, o pedantismo e o melodrama. Mas nem tudo tem sido lucrativo nessa evolução da modernidade. O que anteriormente chamávamos de 'zombaria metódica' transformou-se num dispositivo diabólico que parou de nos obedecer: quando o colocamos em movimento, corremos o risco de não conseguir pará-lo. A ironia abre portas decisivas, mas carrega também consigo uma carga de exaustão, de descrença, de paralisia, contra a qual Rilke advertiu em suas cartas a um jovem poeta.

Existe uma fábula do Japão do pós-guerra relatando a história de um polvo abandonado num aquário, esquecido por todos e não alimentado por ninguém. Presa de uma fome insuportável, a criatura começa a comer os próprios tentáculos, devorando-se dia após dia até desaparecer completamente. Aí o aquário parece vazio, mas o polvo continua a existir ali, invisível, prisioneiro da mesma fome perpétua, insaciável. Para mim, a idéia desse polvo auto-devorando-se, eternamente faminto, ao mesmo tempo invisível e ferozmente presente, é muito perturbadora.

Podemos nos perguntar se nosso processo esfomeado e voraz de culturalizar tudo não se parece, em certo sentido, com esse infeliz polvo. Eu me pergunto se fomos tão longe no caminho trilhado por Dom Quixote que, por pura inversão dialética, inadvertidamente já ficamos tão fora de controle que invertemos os termos: o que era loucura para ele, para o homem contemporâneo se mostra uma forma privilegiada de razão. Hoje, todo moinho de vento é algum tipo de gigante inventado pela razão; como propôs Goya, 'O sono da razão produz monstros.' Acreditar na existência real de moinhos de vento se verificou mera ingenuidade, ou pior, uma forma imperdoável de kitsch.

Damos rédea livre a nossa tendência a construir cultura como se ela fosse uma espécie de lasanha: camada sobre camada sobre camada, representações culturais que sustentam representações culturais anteriores e que, por sua vez, geram representações culturais subseqüentes. E, no processo, onde encontrar algum vínculo com a realidade? Para onde foi nossa velha amiga vida?

Como o polvo da lenda, uma cultura que só se alimenta de si mesma corre o risco de desaparecer. O protagonista do último romance de Umberto Eco, que perdeu a memória pessoal, íntima, embora mantivesse intacta sua memória cultural enciclopédica, lamenta ao tentar se lembrar do avô: 'Sei tudo sobre Alexandre o Grande, mas nada sobre meu próprio pequeno Alexandre.' Talvez 'ele tenha perdido sua alma', para resumir o problema em suas próprias palavras.

É possível que este possa ser o momento de reconsiderar ou, ao menos, questionar, essa que no século 17 foi uma descoberta tão importante. É por isso que podemos dizer com todo nosso coração: 'Ao nosso grande Quixote, longa vida! Possa ele viver pelo menos outros 400 anos!' Mas, ao mesmo tempo, acredito que precisamos tirar do esquecimento aquilo que um dia foi tão saudável: os velhos e sólidos moinhos de vento da realidade. Não devemos esquecer que eles também existem. Ou quem sabe? Será que realmente existem? Devo confessar a suspeita de que eles poderiam não existir mais - salvo na Holanda, claro, onde foram reduzidos a meros ornamentos culturais.

Laura Restrepo, escritora colombiana, proferiu esta palestra durante o Pen World Voices: The New York Festival of International Literature, em abril de 2005, e agora o cedeu com exclusividade para publicação no Estado. É autora de A Noiva Escura (Cia. das Letras, 2003), Doce Companhia (Record, 1997), Leopardo al Sol e Delírio, pelo qual ganhou o Alfaguara Prize em 2004, entre outros


Blog EntryExposição na Revista EspressoSep 18, '07 12:45 PM
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A fotógrafa e artista plástica Vicki Harris é apaixonada por café. Nos últimos anos, clicou diversas cafeterias, no Brasil e no exterior, registrando cada ambiente e cada cafezinho. As imagens da exposição, intitulada "Meu vício, desde o início...", revelam os diferentes tipos de café: solitários, para momentos de reflexão, românticos, entre amigos, gastronômicos. Uma abordagem da bebida como cultura e encontro social, que pode ser vista na Cafeera do Itaim Bibi, na cidade de São Paulo, a partir de 20 de setembro. A entrada é franca.


SERVIÇO

ONDE: Cafeera. Rua Pedroso Alvarenga, 937 - São Paulo (SP).

QUANDO: de 20/9 a 20/10.


 





http://www.revistaespresso.com/Edicoes/0/Artigo61572-1.asp







Blog Entrycriado-mudoSep 2, '07 10:18 PM
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Abre a porta do elevador
a noite é cabra-cega
o livro no criado mudo diz:
o que você quer da sua vida?

bate o surdo
cardíaco aviso

tique taque
tique taque
tentando pelo tato

o que você quer da sua vida?
boca seca saboreia o nada
o gosto do que não ficou
no criado-mudo a voz do livro
ensurdece o breu da noite
fecha a porta do elevador;
o que você não quer da sua vida.


V Harris - ago 07

Blog EntryLuanda ...por José Eduardo AgualusaJul 27, '07 5:23 PM
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.

....e toda esta gente movendo-se pelos passeios, acotovelando-se nas esquinas, numa espécie de jogo universal da cabra-cega. Moços líricos. Moças tísicas. Empresas de esperança privada. Chineses (de novo) em revoada. Meninos vendendo cigarros, chaves, pilhas, pipocas, cadeados, almofadas, cabide, perfumes, telemóveis, balanças, sapatos, rádios, mesas, aspiradores. Meninas vendendo-se à porta dos hotéis. Meninos apregoando quimbembeques, espelhos, colas , colares, bolas de plástico, elásticos para o cabelo. Meninas negociando cabelo loiro, "Cem por cento humano", em tranças, para tiçagem. Mutilados hipotecando as próteses. Quitandeiras mercadejando mamões, maracujás, laranjas, limões, pêras, maçãs, uvas suculentas e remotos kiwis.
Tio! Paizinho! Meu padrinho! Ai, olha aqui o teu amigo. Carapauê!  Vai por quinhentos, o disco, meu brother!

                           ...Lavo...
                                              
                                                    ...Guardo
          ...Engraxo...


Se fosse uma ave, Luanda seria uma imensa arara, bêbada de abismo e de azul. Se fosse uma catástrofe, seria um  terremoto: energia insubmissa, estremecendo em uníssono as profundas fundações do mundo. Se fosse uma mulher, seria uma meretriz mulata, de coxas exuberantes, peito farto, já um pouco cansada, dançando nua em pleno carnaval.

Se fosse uma doença, um aneurisma.

O ruído sufoca a cidade como um cobertor de arame farpado. Ao meio dia o ar rarefeito reverbera. Motores, milhares e milhares de motores de carros, geradores, máquinas convulsas em movimento. Gruas erguendo prédios. Capideiras carpindo um morto, em longos, lúgubres uivos, num apartamento qualquer de um prédio de luxo. E pancadas, gente que se insulta aos gritos, clamores, latidos, gargalhadas, gemidos, rappers berrando a sua indignação sobre o vasto clamor do caos em chamas....





..de "As mulhers do meu pai..."
arte de António Ole




Blog EntrylevoJul 24, '07 10:37 AM
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nos traços
nos trapos
lençóis manchados
de suor e tinta
te carreguei pelo velho
pelos meus novos mundos
imundos
imundos


Blog Entryme(n)tiraJul 23, '07 6:54 PM
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me(n) tira uma foto
aquela
do passarinho no teu quintal
me(n) tira do sério
me(n) tira pra rua
me atira redes
me conta estorinhas repetidas
me(n) tira
me(n) tira a roupa
só uma
só mente
somente uma
me(n) tira









Blog EntryA obra de arte - Tchekhov Jul 22, '07 12:00 PM
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A obra de arte

Anton Tchekhov


Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!

— Mas... por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” ·

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...

— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho...

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.







Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.


Ilustração: Airon BarretoWilliam Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...


Rubem Alves


O texto acima foi extraído da seção "Sinapse", jornal "Folha de S.Paulo", versão on line, publicado em 26/10/2004.





Blog Entryum Drummond...campo de floresNov 26, '06 11:46 AM
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                            Campo de Flores

 

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.


 


 

 

"Iluminuras Contemporâneas" é nova exposição do Reserva Cultural

Tendo o construtivismo como referência, o artista plástico Luiz Carlos Carvalho expõe cerca de 20 obras, mesclando fotografia e pintura

Inspiradas na antiga técnica medieval de ilustrações da escrita, chega à Reserva Cultural, a partir do dia 27 de outubro, à exposição "Iluminuras Contemporâneas", do niteroiense Luiz Carlos de Carvalho.

A mostra, que integra o projeto "Arte no Cinema", reúne 20 iluminuras que são, na verdade, uma história de amor do artista com imagens e palavras. Fotos tiradas por ele mesmo, ou enviadas por terceiros, são pintadas digitalmente e caligrafadas, criando uma obra de arte única e personalizada, uma página de um livro de contos.

O resultado é a realização de um sonho; a utilização da figura humana como pergaminho, como pele, papiro em branco, no qual se possa caligrafar e eternizar sentimentos.

O artista plástico, que já participou de diversas bienais, salões e exposições no Brasil e em países como Argentina, Portugal, Espanha, Estados Unidos e França, iniciou sua trajetória artística com o desenho, passando pela fotografia trabalhada com nanquim, lançou-se na pintura concreta que o encaminhou à paisagem urbana em suas gravuras em metal.

Após três décadas se dedicando a esta linguagem, Luiz Carlos agora tem se dedicado à união da pintura e da mídia eletrônica, utilizando a internet como ferramenta de trabalho, num processo de pintura, que aliado à fotografia e caligrafia, produzem um estilo único no âmbito da arte contemporânea.

Luiz Carlos afirma que é importante ter seu trabalho exposto no Reserva Cultural, pois ele está em um local privilegiado do pólo cultur al paulistano. "O Reserva congrega o melhor da cultura e disponibiliza para um público seleto."

Serviço

Arte no Cinema: Exposição "Iluminuras Contemporâneas"

Quem:Luiz Carlos de Carvalho

Local: Reserva Cultural - Av. Paulista, 900 – térreo baixo

Data: a partir de 27 de outubro

Horário: das 9h00 às 23h00

GRÁTIS

Sobre a Reserva Cultural

O mais inovador complexo cultural de São Paulo, inaugurado em junho de 2005, tem a proposta de ser mais do que um espaço para projeção de filmes. O freqüentador de cinema ou quem busca um programa charmoso unindo lazer (cinema, música, exposições de arte) e gastronomia conta com um local diferenciado e charmoso.

O espaço abriga a Boulangerie Pain de France; o Deck-café, com ampla vista da Avenida Paulista, oferece pratos variados da cozinha internacional (risotos, massas, saladas, carnes, sopas) e sanduíches; com design arrojado, o Bar conta com atendimento de barman e drinques variados.

O Lobby multimídia é composto de três monitores de plasma, exibindo entrevistas, trailers de filmes, imagens de making of e outras novidades do mundo do cinema. O espaço inteiro está equipado com acesso a web sem fio (Wi-Fi).

Em junho de 2006, foi inaugurada a Livraria e Revistaria Lima Barreto, que apresenta um perfil autoral, voltada para literatura (brasileira e estrangeira), atualidades, história, cinema, artes e comunicação e conta com uma sofisticada revistaria repleta de títulos nacionais e estrangeiros, dos segmentos de informação, cinema, moda e cultura.

A programação é dedicada a filmes independentes, brasileiros e estrangeiros e as projeções podem acontecer em película ou pelo sistema digital, já que as quatro salas estão capacitadas para isso.

A Reserva Cultural está localizada no marco zero da Avenida Paulista, no prédio da Fundação Cásper Líbero.

www.reservacultural.com.br

 

 

venham , venham , venham...

uma produção Vicki Harris

 

 


Blog EntrysupervickiOct 23, '06 8:32 AM
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Link

 


 

ganhei de aniversário

thks !

 

 


Blog EntrymortografiaOct 17, '06 1:50 AM
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eram craços

redundantes

filosofia em pedassos

e minhas críticas pedantes

 

falta de concordânssia

sintacses primitivas

sem estilo nem ganançia

pueris micivas

 

na calma do prezente

nem poezia, nem lussidez

vejo só  conteúdo auzente

e os erros de Portuguez...

 

 

 

 

v harris

 

 


Blog EntrymúsicaOct 16, '06 7:55 PM
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Baixíssimo porém perfeitamente satisfatório:

de lá do alto ouvira o barulho ...

 

aquele relógio que tanto almejou

símbolo de tudo que quis

da luta, da febre, do brilho no olhar

caía no porão do edifício

jogado pela fresta do elevador.

 

tocou o pulso suado,

livre do desconforto

da pulseira apertada

e gargalhou.

 

Era triste,

infantil,

era sádico:

Era bom.

 

 

 

Vicki Harris


Blog EntryCumpliCidade - poema revisitado Aug 15, '06 8:20 PM
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Talvez fosse uma segunda-feira

Incerta vez,

Certamente a primeira

Talvez fosse insensatez

 

Talvez fosse tremendo o abraço

Num canto, na esquina

Criava-se o laço

Cumpria-se a sina

 

Talvez vissem imagens, matizes

Pétala por pétala abertas sem dor

Lugares, momentos, países

Talvez fosse segredo, o beija-flor

 

Talvez fosse o clima, a cidade, a avenida

Inexplicáveis, impossíveis

Velozes carros de corrida

Inconseqüentes, imbatíveis

 

Talvez fossem pecados mortais

Juras, apelos no escuro

Sociedade de iguais

Brindando o presente, desenhando um futuro

 

Talvez fossem verdes, crianças

Brincando com a sorte no asfalto

Ou quem sabe tons terra, mudanças

Folhas maduras na relva, vistas do alto.

 

 

Texto e imagens:

V. Harris

 

 



Blog EntryVeneno - poison - importante ....May 22, '06 10:56 AM
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CONFERÊNCIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE E FUNDAÇÃO ESCLEROSE MÚLTIPLA EM ROTA DE COLISÃO COM A MONSANTO (criadora do ASPARTAME)


(Artigo escrito pela Dra. Mancy Marckle)


"Passei alguns dias falando na CONFERÊNCIA MUNDIAL DE MEIO AMBIENTE a respeito do ASPARTAME, conhecido com nutrasweet, Equal, Spoonful, FINN.
Eles anunciaram que existia uma epidemia de esclerose múltipla e lúpus sistêmico, e não entendiam que toxina estava fazendo com que essas doenças assolassem os Estados Unidos tão rapidamente. Eu expliquei que
eu estava lá para falar exatamente sobre este assunto. Quando a temperatura do ASPARTAME excede 30º C, o álcool contido no ASPARTAME se converte em formaldeído e daí para ácido fórmico, que provoca acidose metabólica (o ácido fórmico é o veneno das formigas). A toxidade do metanol imita a esclerose múltipla e as pessoas recebem diagnóstico errado de esclerose múltipla. A esclerose múltipla não se constitui em sentença de morte, mas a toxidade do metanol sim. No caso do lúpus sistêmico estamos percebendo que é quase tão grave quanto a esclerose múltipla especialmente em usuários de DIET COKE e DIET PEPSI. Não é para menos, considerada a toxidade do
metanol ... (As vítimas geralmente bebem de 3 a 4 latas destes refrigerantes por dia, ou mais)
.

Nos casos de lúpus sistêmico causado pelo ASPARTAME, a vítima geralmente não sabe que o ASPARTAME é causa de sua doença e continua  com seu uso, agravando o lúpus a um grau tão intenso que algumas vezes ameaça a vida.

Quando interrompemos o uso do ASPARTAME, as pessoas que tinham lúpus ficam assintomáticas. Infelizmente, não podemos reverter essa doença.
Por outro lado, nos casos diagnosticados como esclerose múltipla (quando, na realidade, a doença é devida ä toxidade do metanol) a maioria dos sintomas desaparece. Nós temos visto casos em que a visão retornou e mesmo a audição foi recuperada. Isso também se aplica aos casos de tinittus auricularis (zumbido no ouvido).

Em uma conferência eu disse:

- Se você está usando ASPARTAME (Nutrasweet, Equal e Spoonful, Finn, etc.) e sofre de sintomas como fibromialgia, espasmos, dores, formigamentos nas pernas, câimbras, vertigem, tontura, dor de cabeça, zumbido no ouvido, dores articulares, depressão, ataques de ansiedade, fala atrapalhada, visão borrada ou perda de memória - VOCÊ PROVAVELMENTE  TEM A DOENÇA DO ASPARTAME!
As pessoas começaram a pular durante a palestra dizendo:

- Eu tenho isto, é reversível? É impressionante. Em uma palestra assistida pelo embaixador de Uganda, ele nos contou que a indústria de açúcar deles está adicionando ASPARTAME ao açúcar!
Um estranho veio até o Dr. Espisto (um de meus palestrantes) e perguntou por que tantas pessoas estavam tendo esclerose múltipla (MS). Durante a visita a um hospital, uma enfermeira disse que seis amigos dela que eram viciados em diet coke, tinham sido diagnosticados com MS. Isso é mais do que coincidência.
Há um tempo atrás houve audiências no congresso dos EUA incluindo o ASPARTAME em 100 produtos diferentes. Nada foi feito. Os lobbies da droga e da indústria química tem bolsos muito profundos. Agora existem mais de 5.000 produtos contaminados com esse produto químico, e a patente expirou. Na época da primeira audiência, as pessoas estavam ficando cegas. O metanol no ASPARTAME se converte em formaldeído na retina do olho.

Formaldeído é do mesmo grupo das drogas como cianeto e arsênico: venenos mortais!

Infelizmente, leva muito tempo para matar, mas está matando as pessoas e causando todos os tipos de problemas
neurológicos.

O ASPARTAME muda a química do cérebro. É a causa de diversos tipos de ataque. Essa droga muda os níveis de dopamina no cérebro. Imagine o que acontece com os pacientes que sofrem de Doença de Parkinson? Também causa malformações fetais. Não existe nenhuma razão para se utilizar esse produto. NÃO É UM PRODUTO DIETÉTICO! Os
anais do Congresso dizem: ele faz você desejar carboidratos e, em conseqüência, engordar. Dr. Roberts viu que quando interrompeu o uso de ASPARTAME a perda de peso foi de 9,5 Kg por pessoa.

O formaldeído se armazena nas cédulas adiposas, principalmente nos quadris e coxas. O ASPARTAME é especialmente mortal para os diabéticos. Todos os médicos sabem o que o metanol causaria num diabético. Muitos médicos acreditam que seus pacientes têm retinopatia, quando de fato, o mal é causado pelo ASPARTAME.

O ASPARTAME mantém o açúcar sangüíneo fora de controle, fazendo com que muitos pacientes entrem em coma. Infelizmente, muitos morreram.
Pessoas nos contaram na Conferência do Colégio Americano de Medicina que tinham parentes que mudaram de sacarina para o ASPARTAME e agora eventualmente entram em coma. Seus médicos não conseguem controlar os níveis de glicemia. Os pacientes têm perda de memória pelo fato de que o ácido aspártico e a fenilalanina são neurotóxicos sem os outros aminoácidos encontrados nas proteínas. Eles atravessam a barreira hemato-encefálica e causam deterioração nos neurônios.

Dr. Russel Blaylock, neurocirurgião, diz: Os ingredientes estimulam os neurônios até a morte causando dano cerebral em vários níveis. Dr. Blaylock escreveu um livro intitulado:
"Excitotoxinas: O Gosto que Mata". (Health Press, 1-800-643-2665).

O Dr. H. J. Roberts, especialista diabético e perito mundial em envenenamento pelo ASPARTAME, escreveu um livro intitulado: "DEFESA CONTRA A DOENÇA DE ALZHEIMER" (1-800-814-8900). Dr. Roberts mostra como o envenenamento pelo ASPARTAME está relacionado à doença de Alzheimer.
Mulheres de 30 anos estão sendo internadas com Alzheimer. Dr. Blaylock e Dr. Roberts estão escrevendo uma carta-posição com alguns casos relatados e vão colocá-la na Internet. De acordo com a conferência do Colégio Americano de Medicina, nós estamos falando de uma praga de doenças neurológicas causada por esse veneno mortal. Dr. Roberts descobriu o que aconteceu quando o ASPARTAME foi vendido pela primeira vez. Ele disse que seus pacientes diabéticos apresentaram perda de memória, confusão e severa perda de visão.

Na Conferência do Colégio Americano de Medicina, os médicos admitiram que não sabiam. Eles estavam procurando saber por que ataques tinham aumentado tanto (a fenilalanina do ASPARTAME diminui o limiar para a convulsão e depleta a serotonina, o que causa psicose maníaco depressiva, ataque de pânico, fúria e violência).

Antes da Conferência, eu recebi um fax da Noruega, pedindo um possível antídoto para esse veneno, porque a pessoa estava sentindo esses tantos problemas no seu País. Esse veneno, agora, está disponível em muitos países.
Felizmente, tivemos embaixadores e palestrantes na onferência que se engajaram nesta luta.

PEDIMOS QUE VOCÊ SE ENGAJE TAMBÉM.

Imprima este artigo e avise todas as pessoas que você conhece.

Tire tudo o que contém aspartame do armário. Envie para nós sua história.
Eu asseguro que a Monsanto, criadora do ASPARTAME, sabe como ele é mortal. Ela financia a Associação Americana de Diabetes, a Associação Americana de Dietética, o Congresso e a Conferência do Colégio Americano de Medicina.

O New York Times, em 15 de Novembro de 1996, publicou artigo a respeito de como a Associação Americana de Dietética recebe dinheiro da indústria alimentícia para endossar seus produtos. Por isso, eles não podem criticar ou falar a respeito de sua ligação com a MONSANTO.

Existem 92 sintomas documentados de ASPARTAME, do coma à morte. A maioria deles é neurológica, porque o ASPARTAME destrói o sistema nervoso. A doença do ASPARTAME é parcialmente a causa da síndrome "Tempestade No Deserto".
A queimação na língua e os outros sintomas discutidos em mais de 60 casos podem estar diretamente relacionados ao consumo de produtos contendo ASPARTAME. Milhares de latas de bebidas diet foram enviadas para as tropas do "Tempestade no Deserto". (Lembre-se que o calor pode liberar o metanol do ASPARTAME a 30º C.) As bebidas dietéticas foram expostas ao sol de 45º C no deserto árabe, por semanas. Homens e mulheres de serviço bebiam isso o dia todo. Todos os sintomas deles eram semelhantes ao envenenamento por ASPARTAME. Dr. Roberts diz que o consumo do ASPARTAME na época da concepção pode causar defeitos no feto. A FENILALANINA se concentra na
placenta causando retardo mental, de acordo com o Dr. Louis Elsas, Professor de Genética Pediátrica na Universidade de Emory.
Em testes de laboratório, animais desenvolvem tumores cerebrais (a fenilalanina tem um subproduto o DXP, agente causador de tumores cerebrais).
Quando o Dr. Espisto estava falando, um neurocirurgião da platéia disse: Encontra-se, de fato, um teor elevado de ASPARTAME nos tumores cerebrais removidos.

A STÉVIA, um adoçante natural, NÃO É UM ADITIVO, e ajuda no metabolismo do açúcar: seria ideal para os Diabéticos e foi aprovada, agora, como suplemento dietético pelo FDA. Durante anos, o FDA adiou essa aprovação por causa da sua lealdade à MONSANTO."

(O texto acima foi corrigido por Nivaldo Alves Soares e Josealdo Tonholo- Depto. Química/CCEN - Universidade Federal de Alagoas) -Campus A. C. Simões - Tabuleiro do Martins 57.072-970 - Maceió - AL- Brasil - Fone/fax: (082) 214-1389).




Blog EntryCabra CegaApr 22, '06 9:42 AM
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Cabra Cega

 

Vou negar a idade

a cidade

a idoneidade

Vou por a pizza no chão

Gritar na porta da galeria

correr na rua

andar pela casa nua

encarar a vida

com a venda da cabra-cega.

 

 



Blog Entrywadsworth girlApr 16, '06 8:46 PM
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There was a little girl

 

 

There was a little girl

Who had a little curl

Right in the middle of her forehead;

And when she was good

She was very, very good,

But when she was bad she was horrid.

 

 

Henry Wadsworth Longfellow

(1807-1882)



Blog EntryLike Fred and GingerApr 3, '06 9:18 PM
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Era um supermercado comum. Daqueles pequenos, de bairro.

Numa noite qualquer. Daquelas durante semana, nem mais nem menos quentes.

Por entre as latas de leite moça e os cereais açucarados dançavam os dois.

Não era bolero, nem tango, talvez forró. Dançavam sem música, inclusive.

Naquele ritmo, ou falta de, dos que já não se importam.

 

Risos zombeteiros dos jovens,

Suspiros coniventes dos mais velhos

E seguia o baile no corredor das torradas e geléias.

Estavam sós nessa dança pública e improvisada

Na certeza de que era certo e bom estar ali.

 

Rosto e corpo colados, respirando o ar que dá vida ao outro,

Olhos fechados para a realidade externa

Os passos guiando um tempo próprio

Achados e perdidos no meio das tentações de chocolate

Alimentam-se do encaixe dos quadris.

 

E no Pão de Açúcar segue a evolução

Pombas-giras, exus

Corações de atabaque

No caixa se encaixam

Se perdem , se acham

E pagam pra ver,

O amor que consome

E somem.

 

 



Blog EntryBrewing...Feb 17, '06 6:35 PM
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Junção

não são,

São muitos

São vários

São todos

São godos

Bárbaros

baros

São meios

meioses

Contágios,

viroses

Diversos

Reversos

perversos

Avessos

travessos

divisões

frações

são coro

são couro

estouro

estampido

ruído

ensurdecem

anoitecem

ocultos

são vultos

dementes