 | Brasas | May 8, '08 12:55 PM for everyone |
Virá como um gato à tardinha. Macio e ligeiro virá, sonolento e cruel, leve e certeiro, virá encurvado, em silêncio, sobre patas que pairam, o dorso arqueado, peludo, sedoso e cruel armado para o salto, virá como a faca aguçada. As pupilas amarelo-tigre, sorrateiro, bajulador, virá como um gato pelo muro, armando a emboscada, paciente, elástico: viu o inseto, não desistirá.
Virá, não vai desistir. Volte pra mim até que venha, não desapareça, pelo menos às noites volte pra mim, desejo: quando ainda era jovem, magro e com espinhas no rosto, dia e noite fantasiava poemas, fantasiava mulheres dia e noite você não me abandonava: comigo na cama, comigo ao levantar, brasas da minha noite, vergonha diária no leito, na escola, nos jogos, no pomar, ardendo em desejos pela mulher sem mulher: rinoceronte pela manhã, rinoceronte de dia, rinoceronte à noite, rinoceronte no sonho, o sutiã pendurado na corda, par de sandálias de mulher no corredor de entrada, o rodar do lápis no apontador, a moça em uniforme do exército, gorda e de grossas tranças aproxima da boca a colher da densa geléia de ameixa, meu sangue engrossava em mel quente. Ou à noite, por trás da cortina fechada, a silhueta da mulher que penteia outra, todo movimento em curvas graciosas, mexendo, misturando, afofando, todo som das vozes descendo ao murmúrio, a moça costura um botão na roupa, o toque do sabonete, da pasta na palma da minha mão, piada suja, palavrão, um traço de perfume misturado ao cheiro secreto de suor de mulher, no mesmo instante sinto em mim a erupção de um gêiser fervente envolto em vapores de vergonha. Até mesmo palavra mulher impressa, até mesmo seio escrito na caligrafia arredondada, ou o jeito do sofá virado de pernas pro ar faziam ferver em mim o caldo do desejo, e o corpo se crispar como um punho. Agora um macho velho, rinoceronte das memórias em sua cama ele te implora volte, que volte o desejo pela mulher, que volte para ele à noite, que volte ao menos em sonhos aquele tremor, que volte o queimar das brasas que sussurramm, que tão te esqueça que não esqueça até que venha o que vier, nas patas de seda deslizantes, o pelame macio a pupila amarelada, virá como eco de um leve sussurro e nele os caninos afiados da pantera, da mulher esquiva.
de "O mesmo Mar"
de Amós Oz
 | Espetacular! Texto e ilustração. Beijos |
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