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|  | Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria."(Clique aqui para você ler um texto sobre jardins)
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.
O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:
Se, no teu centro um Paraíso não puderes encontrar, não existe chance alguma de, algum dia, nele entrar.
Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:
"No mistério do Sem-Fim, equilibra-se um planeta. E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro: no canteiro, urna violeta, e, sobre ela, o dia inteiro, entre o planeta e o Sem-Fim, a asa de urna borboleta."
Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p 65).
Rubem alves
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|  | Um poema amarelo tem de rimar obrigatoriamente com caramelo. Isto na perspectiva idiota do poeta idiota como uma frota que sou eu.
Amarelo é a cor dos dentes de quem fuma e não só. Os meus são verdes porque fumo erva mas não dessa. A que eu prefiro é a do estádio nacional porque é pouco pisada, não sabe mal, e provoca uma risada contida mas integral.
Amarelo é a cor dos que não fazem greve. Os outros são vermelhos e sabem quem foi o brejnev.
Amarelo é a cor do Verão quando não chove e a cor do Inverno quando faz sol.
Amarelo sou eu: o berrante, o chato, o irritante. Aquele que escreve poesia como quem mata um elefante.
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A loucura e a identidade cultural Por que o homem moderno tanto se reconhece nas palavras de um lunático? Laura Restrepo Não é por coincidência que Dom Quixote e Hamlet, os dois personagens literários que prefiguram o homem moderno - um da literatura espanhola e o outro da inglesa - são ambos loucos, ou fingem sê-lo. Tanto Cervantes como Shakespeare recorrem a esse peculiar recurso narrativo, tornar loucos seus respectivos personagens, com o resultado de que, nos séculos posteriores a suas obras, o conceito de louco se tornou gradualmente um marco de modernidade, de alteridade, de uma visão irônica, subjetiva do mundo. Em suma, ele envolve uma liberdade - errar, enganar a si e aos outros, duvidar, falhar; o que significa, uma liberdade para as idiossincrasias humanas seguirem o seu próprio caminho.
Qual a conexão simbólica entre loucura e modernidade? Por que o homem moderno haveria de terminar se reconhecendo nas palavras de um lunático? Seguramente porque, no momento em que o grande divisor é reconhecido pela primeira vez, a loucura é o único nome concebível para esse exercício de fazer em pedaços os velhos modelos, de transgredir os limites do conhecido e do que é aceito, de ir além do que quer que a racionalidade convencional tenha conseguido codificar.
Como o próprio Cervantes indicou muitas vezes, a principal causa da loucura de Dom Quixote é sua leitura de livros de cavalaria. Essa obsessão o leva a perder a identidade e a se conceber não mais como uma mera pessoa, mas como um personagem: de um lado, existe o Alonso Quijano de todo dia, e de outro, a visão que ele tem de si mesmo como um cavaleiro errante e famoso reparador das injustiças. Para se reinventar à semelhança do que leu, ele se dá o falso nome de Dom Quixote, inventa um codinome adequado para seu cavalo, conjura uma linda dama do ar, e constrói um amor monumental por ela.
Desde o seu surgimento, a natureza de Dom Quixote, como será a de um homem moderno, é marcada por cultura e meios de comunicação. Não foi por acaso que Dom Quixote nasceu na mesma época que o primeiro meio de comunicação de massa, conhecido como a imprensa escrita, que, por sua vez, promoveu aquele gênero literário amplamente disseminado, conhecido como romance cavalheiresco.
Dom Quixote arenga seguidas vezes, enquanto se reinventa para si mesmo, e os leitores o acham estranho, maluco, mas ao mesmo tempo se reconhecem nele, e é aí que se revela a grande transformação. Pois, entre Dom Quixote e o mundo que o rodeia, surgiu um poderoso mediador cultural: o da própria linguagem, com seu poder imenso de reformar a realidade, e não raro, suplantá-la. Dom Quixote, o primeiro homem moderno, passa de mero ser natural a uma entidade cultural.
Com Hamlet acontece algo parecido: sua loucura é basicamente teatral, na medida em que ele está agindo como se estivesse louco. Ele vê o mundo como um cenário. Em Hamlet, essa nova realidade cultural adquire um poder que finalmente se impõe sobre a outra realidade, a 'real', que lentamente se desenrola e é vista como sistematicamente suspeita. Tanto Dom Quixote como Hamlet nos confrontam com um novo tipo de ser humano que não é mais tão obcecado pela realidade quanto o é pela representação da realidade, por meio da cultura.
Hoje, continuamos trilhando o caminho traçado por esses dois personagens enquanto discutimos a influência do Quixote em vários âmbitos culturais. Deve-se notar que não estamos discutindo a influência de Quixote sobre pessoas enquanto tal, mas sobre a cultura que os seres humanos geraram. Mas não podemos ser acusados de loucura por isso: porque o que em Dom Quixote era loucura, é hoje um componente padrão do homem moderno que desconfia desse elemento tênue a que chamamos realidade e duvida até da própria existência. Nos sentimos mais confortáveis confiando no simbolismo do real e de suas representações. Não estamos mais interessados em lidar com a realidade como matéria-prima, pois sentimos um chão mais sólido quando nos digladiamos com nossas próprias criações - os sistemas de signos que constituem a cultura. No século 17, essa forma peculiar de epistemologia irrompeu de maneira tão inesperada que Cervantes teve de chamá-la loucura; hoje, ela alcançou uma rara estatura nos domínios da razão.
Dom Quixote se acredita um cavaleiro andante, mas não é; Cervantes se empenha em nos revelar sua verdadeira face por uma peça de dupla articulação, por uma visão refletida que se revela tipicamente moderna. Entre o homem e a visão que ele tem de si mesmo, há uma disparidade que produz vertigem, com possibilidades ilimitadas colocadas em jogo, e uma dose quase inimaginável de ambigüidade.
Enfim, há ironia. Esse novo tipo de ser humano suspeita que existe uma anulação, uma combinação imperfeita entre o self e o universo, entre o sujeito e o que o cerca, e é precisamente dessa incompreensão que emerge a ironia moderna, com sua desconfiança, ao modo de Hamlet, das possibilidades da ação.
Para conceber o homem novo, é preciso proceder por meio da dúvida - dúvida metódica, segundo o primeiro filósofo moderno, Descartes - mas também pela zombaria. Cervantes goza de seu personagem, faz dele uma criatura grotesca, uma aberração. Uma ferramenta semelhante de zombaria metódica posteriormente converte os Gregor Samsas da literatura contemporânea em insetos.
Assim, o homem supera sua própria ingenuidade quando vira para ela esse novo olhar irônico, dissociado, e ao superar essa ingenuidade ele deixa a infância para trás. Quem se deixar duvidar, e rir, deixa para trás a realidade rasa, decifrável, para penetrar numa zona mais problemática, povoada de figuras em chiaroscuro, de marchas e contramarchas, de duplos sentidos, de ambigüidades ressoantes.
Dúvida e humor implicam o fim do heroísmo, a antiga fé que tornava a ação possível, enquanto ironia e dúvida tendem a paralisar. Por isso, Hamlet é um tamanho fiasco como vingador, e Dom Quixote, tamanha caricatura de cavaleiro errante. Nesses dois personagens, o homem moderno se reconhece como tendo reformado o curso de seu próprio destino, e como quem dá dois passos atrás para cada passo adiante. Como alguém enredado na própria capa, ou urinando na própria sopa. Para colocar nas palavras de Cervantes, nos reconhecemos como tendo 'saído para o mundo pela porta errada'.
O jogo decisivo deixou de ser jogado no terreno da realidade e é antes mediado no terreno da cultura, e, por isso, chegamos a ver algumas atitudes excessivamente imbuídas de realidade como ingênuas, pré-modernas e antiquadas, ocupadas demais com avatares do real; achamos o heroísmo suspeito, para não mencionar qualquer excesso de paixão ou convicção, como dar sua vida por uma causa, ou morrer por amor: essas atitudes são consideradas além do espectro do razoável. Escritores sérios deram livre rédea a uma tendência de ver como anacronismo os dramas sociais, dramas regionais, dramas humanos comuns, de carne e sangue, isto é, do tipo que vemos na rua, do tipo que ofende nossas sensibilidades. Preferimos lidar com isso depois de filtrado, catalogado, e, de certo modo, domado pela abstração.
Com o fim da crença em qualquer forma de heroísmo, exilamos também a grandiloqüência, o pedantismo e o melodrama. Mas nem tudo tem sido lucrativo nessa evolução da modernidade. O que anteriormente chamávamos de 'zombaria metódica' transformou-se num dispositivo diabólico que parou de nos obedecer: quando o colocamos em movimento, corremos o risco de não conseguir pará-lo. A ironia abre portas decisivas, mas carrega também consigo uma carga de exaustão, de descrença, de paralisia, contra a qual Rilke advertiu em suas cartas a um jovem poeta.
Existe uma fábula do Japão do pós-guerra relatando a história de um polvo abandonado num aquário, esquecido por todos e não alimentado por ninguém. Presa de uma fome insuportável, a criatura começa a comer os próprios tentáculos, devorando-se dia após dia até desaparecer completamente. Aí o aquário parece vazio, mas o polvo continua a existir ali, invisível, prisioneiro da mesma fome perpétua, insaciável. Para mim, a idéia desse polvo auto-devorando-se, eternamente faminto, ao mesmo tempo invisível e ferozmente presente, é muito perturbadora.
Podemos nos perguntar se nosso processo esfomeado e voraz de culturalizar tudo não se parece, em certo sentido, com esse infeliz polvo. Eu me pergunto se fomos tão longe no caminho trilhado por Dom Quixote que, por pura inversão dialética, inadvertidamente já ficamos tão fora de controle que invertemos os termos: o que era loucura para ele, para o homem contemporâneo se mostra uma forma privilegiada de razão. Hoje, todo moinho de vento é algum tipo de gigante inventado pela razão; como propôs Goya, 'O sono da razão produz monstros.' Acreditar na existência real de moinhos de vento se verificou mera ingenuidade, ou pior, uma forma imperdoável de kitsch.
Damos rédea livre a nossa tendência a construir cultura como se ela fosse uma espécie de lasanha: camada sobre camada sobre camada, representações culturais que sustentam representações culturais anteriores e que, por sua vez, geram representações culturais subseqüentes. E, no processo, onde encontrar algum vínculo com a realidade? Para onde foi nossa velha amiga vida?
Como o polvo da lenda, uma cultura que só se alimenta de si mesma corre o risco de desaparecer. O protagonista do último romance de Umberto Eco, que perdeu a memória pessoal, íntima, embora mantivesse intacta sua memória cultural enciclopédica, lamenta ao tentar se lembrar do avô: 'Sei tudo sobre Alexandre o Grande, mas nada sobre meu próprio pequeno Alexandre.' Talvez 'ele tenha perdido sua alma', para resumir o problema em suas próprias palavras.
É possível que este possa ser o momento de reconsiderar ou, ao menos, questionar, essa que no século 17 foi uma descoberta tão importante. É por isso que podemos dizer com todo nosso coração: 'Ao nosso grande Quixote, longa vida! Possa ele viver pelo menos outros 400 anos!' Mas, ao mesmo tempo, acredito que precisamos tirar do esquecimento aquilo que um dia foi tão saudável: os velhos e sólidos moinhos de vento da realidade. Não devemos esquecer que eles também existem. Ou quem sabe? Será que realmente existem? Devo confessar a suspeita de que eles poderiam não existir mais - salvo na Holanda, claro, onde foram reduzidos a meros ornamentos culturais. Laura Restrepo, escritora colombiana, proferiu esta palestra durante o Pen World Voices: The New York Festival of International Literature, em abril de 2005, e agora o cedeu com exclusividade para publicação no Estado. É autora de A Noiva Escura (Cia. das Letras, 2003), Doce Companhia (Record, 1997), Leopardo al Sol e Delírio, pelo qual ganhou o Alfaguara Prize em 2004, entre outros
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Sufoco de ter só isto à minha volta! Deixem-me respirar! Abram todas as janelas! Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!
Álvaro de Campos
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Meu jardim
tô relendo minha lida, minha alma, meus amores tô revendo minha vida, minha luta, meus valores refazendo minhas forças, minha fonte, meus favores tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho
estou podando meu jardim estou cuidando de mim
Vander Lee
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|  | ... Qué hace un hombre en estas ocasiones? Envia flores. Éste es un proyecto ridículo... pero las cursilerías, cuando son humildes, tienen todo el gobierno del corazón. En la isla hay muchas flores. A mí llegada quedaban algunos macizos alrededor de la pileta y del museo. Seguramente, podré hacer un jardincito en el pasto que bordea las rocas. Tal vez sirva la naturaleza para lograr la initmidad de una mujer. Tal vez me sirva para acabar con el silencio y la cautela. Será éste mi último recurso poético. Yo no he combinado colores; de pintura no entiendo casi nada...
... ....Me avergüenza un poco declarar mi proyecto. Una imensa mujer sentada, mirando el poniente, con las manos unidas sobre una rodilla; un hombre exíguo, hecho de hoja, arrodillado frente a la mujer (debajo de este personaje pondrá la palabra "yo" entre paréntesis).
Habrá esta inscripción:
Sublime, no lejana y misteriosa, con el silencio vivo de la rosa...
(de La invención de Morel)
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A obra de arte Anton Tchekhov Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff. — Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo? Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou: — Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer. — Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito... Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso. — Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos! — Mas... por que diz isso? — Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda. — Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!... — Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras... — É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte. — Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão? — Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso... Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever. As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar. — O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro! — Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo! — Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor. Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu: “Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” · Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto. "Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” · Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado. — Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico! Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento. — Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade? Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse: — No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo... — Por quê? — quis saber, espantado, o médico. — Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados... — Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado! — Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta... O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório. Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele. “É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..." Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine. A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava: — Não, não, cara amiga! Estou sem roupa! Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços: — Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta.. — Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece. O cômico resolveu seguir o conselho... Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal. — Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida... E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto." Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver". Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física. William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo. Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram". Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção". A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas". Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
Rubem Alves
O texto acima foi extraído da seção "Sinapse", jornal "Folha de S.Paulo", versão on line, publicado em 26/10/2004.
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Eugénio de Castro
Um Sonho
Na messe , que enlourece, estremece a quermesse... O sol, celestial girasol, esmorece... E as cantilenas de serenos sons amenos Fogem fluidas, fluindo a fina flor dos fenos...
As estrelas em seus halos Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas e crotalos, Cítolas,cítaras,sistros, Soam suaves, sonolentos, Sonolentos e suaves, Em Suaves, Suaves, lentos lamentos De acentos Graves Suaves...
Flor! enquanto na messe estremece a quermesse E o sol,o celestial girasol,esmorece, Deixemos estes sons tão serenos e amenos, Fujamos,Flor!à flor destes floridos fenos...
Soam vesperais as Vésperas... Uns com brilhos de alabastros, Outros louros como nêsperas, No céu pardo ardem os astros...
Como aqui se está bem!Além freme a quermesse... - Não sentes um gemer dolente que esmorece? São os amantes delirantes que em amenos Beijos se beijam,Flor!à flor dos frescos fenos...
As estrelas em seus halos Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas e crotalos, Cítolas,cítaras,sistros, Soam suaves, sonolentos, Sonolentos e suaves, Em Suaves, Suaves, lentos lamentos De acentos Graves, Suaves...
Esmaiece na messe o rumor da quermesse... - Não ouves este ai que esmaiece e esmorece? É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos, E chora a sua morta,absorto,à flor dos fenos...
Soam vesperais as Vésperas... Uns com brilhos de alabastros, Outros louros como nêsperas, No céu pardo ardem os astros...
Penumbra de veludo . Esmorece a quermesse... Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece... Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos, Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...
As estrelas em seus halos Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas e crotalos , Cítolas,cítaras,sistros , Soam suaves , sonolentos , Sonolentos e suaves , Em Suaves , Suaves, lentos lamentos De acentos Graves, Suaves...
Teus lábios de cinábrio,entreabre-os!Da quermesse O rumor amolece,esmaiece,esmorece... Dê-me que eu beije os teus morenos e amenos Peitos!Rolemos,Flor!à flor dos flóreos fenos...
Soam vesperais as Vésperas... Uns com brilhos de alabastros, Outros louros como nêsperas, No céu pardo ardem os astros...
Ah! não resista mais a meus ais!Da quermesse O atroador clangor,o rumor esmorece... Rolemos,ó morena!em contactos amenos! - Vibram três tiros à florida flor dos fenos...
As estrelas em seus halos Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas e crotalos, Cítolas,cítaras,sistros, Soam suaves, sonolentos, Sonolentos e suaves, Em Suaves, Suaves, lentos lamentos De acentos Graves, Suaves...
Três da manhã.Desperto incerto...E essa quermesse? E a Flor que sonho? e o sonho? Ah!tudo isso esmorece! No meu quarto uma luz,luz com lumes amenos, Chora o vento lá fora,à flor dos flóreos fenos...
Arcachon,12 de julho de 1889.
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| 01 Vocab [Refugees Hip Hop Remix] | | | | | |
|  | Poema da flor proibida
Por detrás de cada flor há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.
Podia estar à frente ou estar ao lado, mas não, está colocado exactamente por detrás da flor. Também não está escondido nem dissimulado, está dignamente especado por detrás da flor.
Abro as narinas para respirar o perfume da flor, não de repente (é claro) mas devagar, a pouco e pouco, com os olhos postos no chapéu de coco.
Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos, protege-me com o seu amor. Ele sabe que a flor pode ter espinhos, ou tem mesmo, ou já teve, ou pode vir a ter, e fica triste se me vê sofrer.
Transmito um pensamento à flor sem mover a cabeça e sem a olhar De repente, como um cão cínico arreganho o dente e engulo-a sem mastigar.
António Gedeão |
|  | Um homem cresce espalhando o reino em que foi feliz. Onde Athos ? Onde Porthos ? Onde o tímido Aramis ? Um homem cresce querendo e cresce quando não quis.
Crescer é rima de vida mas também é de morrer. Crescer é terna ferida, que só dói no entardecer. Em cada raiz da morte há sempre um verbo crescer.
E cresço: macho e poeta. (Subo em linha, volto em cor) cresço violentamente, cresço em rajadas de amor, cresço nos filhos crescendo, cresço depois que me for.
Cresço em tempo e eternidade, cresço em luta, cresço em dor, não fiz meu verso castrado nem me rendo ao opressor, cresço no povo crescendo, cresço depois que me for.
E cresço na aurora livre galopando esse corcel. cresço no verso espumando entre as linhas do papel. cresço rubro de esperança na barba de Don Fidel.
(versão breve de canção dos quarenta anos - de Ruy Paranatinga Barata)
(só uma coisa me apavora - acordar morena e de cabelos lisos rsrsr NEVER SURRENDER...
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|  | Viveram pouco para morrer bem Morrerram jovens para viver pra sempre
Faz teu epitáfio, pra que através de ti A morte morra de rir Desses que vivem aqui.
Venham também assistir A esse espetáculo, E que minha lápide Lhes sirva de oráculo.
E depois acabou-se A língua humana. O que sobrar, A peste arrebanha.
A cova é o lugar onde O homem trabalha, E a morte é o salário que ele ganha.
o Homem já não existe, nem existe nada igual.
Você que está lendo isto só pode ser um animal.
( acho que é de Timão de Atenas) |
|  | (... Porquê este gostar de coisas tóxicas (de que os outros se desintoxicaram)?
... "Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto , por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! - é o que digo. O senhor aprova ? Me declare tudo, franco - é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso - por estúrdio que me vejam - é de minha certa importância. Tomara não fosse...Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele ? ! Não ? Lhe agradeço ! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela - já o campo ! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, entaõ era eu mesmo, esse vosso servidor. Fosse lhe contar...Bem o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças - eu digo. Pois não é ditado: "Menino - trem do diabo"? E nos usos,nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes...O diabo na rua , no meio do redemoinho...
...Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor - compadre meu Quelemém diz. Família... Deveras? è, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é...Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de seus-amigos! Só que tem os depois - e Deus , junto. Vi muitas nuvens...
João Guimarães Rosa (Grande Sertão : Veredas)
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Talvez fosse uma segunda-feira
Incerta vez,
Certamente a primeira
Talvez fosse insensatez
Talvez fosse tremendo o abraço
Num canto, na esquina
Criava-se o laço
Cumpria-se a sina
Talvez vissem imagens, matizes
Pétala por pétala abertas sem dor
Lugares, momentos, países
Talvez fosse segredo, o beija-flor
Talvez fosse o clima, a cidade, a avenida
Inexplicáveis, impossíveis
Velozes carros de corrida
Inconseqüentes, imbatíveis
Talvez fossem pecados mortais
Juras, apelos no escuro
Sociedade de iguais
Brindando o presente, desenhando um futuro
Talvez fossem verdes, crianças
Brincando com a sorte no asfalto
Ou quem sabe tons terra, mudanças
Folhas maduras na relva, vistas do alto.
Texto e imagens:
V. Harris
  
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